sexta-feira, 7 de março de 2008

Células-tronco, a igreja e o prazer de perdoar

Mais uma excelente crônica de Hélio Schwartsman, com lúcidos argumentos sobre a questão das células-tronco embrionárias. Recomendo a leitura do texto na íntegra, mas destaco alguns trechos:

(...) Estamos, portanto, falando de mórulas que tenham sido consideradas inviáveis ou que estejam congeladas há mais de três anos --o que as torna más candidatas para iniciar uma gravidez. Não foram implantadas num útero e são mais do que remotas as chances de que venham a sê-lo. Seu destino seria a destruição pura e simples ou permanecer indefinidamente congeladas num freezer.

(...) existem alguns milhares de embriões armazenados em clínicas de fertilidade. Qual a proposta do Vaticano para eles? Obrigar as mães a introduzi-los em seus úteros? Oferecer as freiras para servir de barrigas de aluguel e permitir que eles possam nascer?

(...) Não é muito diferente da questão do aborto. (...) o que a igreja pretende que se faça com as mulheres que tentam --e continuarão tentando, não importa o que diga a lei-- expulsar embriões de seus úteros? Colocá-las na cadeia? No Brasil, estima-se que sejam 1,5 milhão de abortos por ano. Lembrando que são relativamente raros os casos de mulheres que fazem dois procedimentos no mesmo ano, precisaríamos de algo como 1,2 milhão de novas vagas/ano em penitenciárias femininas. Isso dá a bagatela de 3.333 vagas/dia, sem botar na conta médicos, parteiras e comadres que se acumpliciam com as criminosas e, pela lei, também deveriam ir para o xilindró. Será que a Santa Sé está disposta a leiloar alguns de seus Michelangelos e Fra Angélicos para nos ajudar a construir tantas cadeias? Minha suspeita é que desejam manter essas práticas na ilegalidade apenas pelo prazer de, depois, perdoar o pecador.

(...) Estima-se que 2/3 a 3/4 dos óvulos fecundados jamais se fixem no útero, resultando em "abortos" espontâneos (...); a "vida em potência", no mais das vezes, torna-se, não "vida em ato", mas "aborto em ato". Se a alma é soprada por Deus no momento da concepção, qual é o sentido desse verdadeiro holocausto anímico? Para cada alma humana que "vinga" duas ou três são sacrificadas antes mesmo de vir à luz. Tamanho "desperdício" seria menos insensato se a Igreja Católica abraçasse, como as religiões antigas, a doutrina da metempsicose (transmigração das almas). A alma não teve sucesso nesta tentativa, paciência, volte mais tarde. Mas, como o catolicismo rejeita a tal da reencarnação, cada aborto resulta numa alma irremediavelmente perdida. (...)

É, entretanto, o fenômeno da gemelaridade que revela todos os limites e contradições da idéia de alma. Gêmeos monozigóticos (idênticos) se formam entre um e 14 dias depois da fertilização, quando o embrião sofre um desenvolvimento anormal dando lugar a dois ou mais indivíduos com o mesmo material genético. A alma, é claro, já estava lá. Cabem, assim, algumas perguntas. Ela também se divide, ou outras almas surgem para animar os demais irmãos? De onde elas vêm? Quem fica com a "original"? E, se gêmeos partilham a mesma alma, como fica o livre-arbítrio? Se um irmão peca, leva o outro --talvez bonzinho-- ao inferno? Ou a alma boa prevalece sobre a má, carregando para o paraíso uma ovelha negra?

Cada um é livre para acreditar ou não em alma, ciência, tratamentos para fertilidade ou uma mistura disso tudo em proporções variáveis. Mas o Estado democrático deve procurar a proporcionar a maior felicidade possível para o maior número de cidadãos, sempre respeitando os direitos de todos. Nessa busca invariavelmente conflituosa, fatos provados devem ter primazia sobre opiniões. Dogmas e crenças de alguns não podem converter-se em obstáculos na busca pelo bem comum.

Há pouco a complementar, mas eu diria que não é só o prazer de perdoar, mas também usufruir da autoridade proporcionada pelo papel de "perdoador".

4 comentários:

Lelec disse...

Olá Elizandro,

Toda essa polêmica, recheada de argumentos obscurantistas, me fez lembrar a declaração do filho de Ronald Reagan, no dia do sepultamento deste, morto com a doença de Alzheimer: "Que a teologia de uns poucos não mate a esperança de muitos".

Abraço,

Lelec

Camila disse...

Olá, encontrei seu blog por acaso e gostei muito. Tá, foi na pg de pesquisa do Google, pesquisando por "O Analista de Bagé" o.O, que é fonte para um artigo didático que estou escrevendo.
Eu sou cronista e tenho um blog semi-abandonado, se vc quiser dar uma olhada. Vou te linkar e passar por aqui com mais tempo, agora preciso msm me dedicar ao artigo.
Abraço!
Só uma observação, no post "Homossexualismo e ..."
A palavra "homossexualismo" naum é mais usada, porque o sufixo "ismo" se refere à doenças, e foi assim designado qdo se considerava homossexualidade como doença mental. Como os médicos reviram esse conceito, resolveram trocar para homossexualidade, por ser considerada apenas uma opção sexual, atualmente.

Camila disse...

Ahnnn, sobre a questão do ateísmo e o "Paulo Sant'Ana discutindo Deus", acho que você está certíssimo, temos que pensar, refletir, discordar. Porém existem coisas mais imediatas que a nossa satisfação em mostrar ao mundo a nossa sanidade: a domesticação da massa. Para nós, seres evoluídos (!) é suportável e até produtivo viver em um mundo, sem saber o pq, o para q e o como. Mas para a maioria isso é o caos absoluto. Eles precisam de uma convicção para viver, e é melhor que venha pronta, pq se eles tivessem intelecto para raciocinar suas próprias convicções, naum dependeriam tanto delas. Por isso eu acho a religião importante. É para os fracos sim, mas eles são a maioria, e msm tendo sempre a banda podre e muita influência preconceituosa e primitiva, tbm faz mt bem, p muita gente simples q só precisava msm de um deus, pq naum tiveram a nossa sorte de estudar, ler, refletir e etc.

TV Digital disse...

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